Depois de anos de espera, a franquia finalmente nos leva ao Japão Feudal em Assassin's Creed Shadows. Com dois protagonistas, Naoe e Yasuke, o título chegou cercado de debates sobre fidelidade histórica, escolhas narrativas e mecânicas de gameplay. Após mais de 100 horas explorando cada canto deste mapa, chegou a hora do veredito: o jogo entrega a fantasia ninja e samurai que tanto queríamos?
A resposta é um misto de emoções. O jogo acerta em cheio em algumas mecânicas clássicas, mas toma decisões de design e direção artística que testam a paciência de qualquer fã de longa data.
A Furtividade Excepcional de Naoe (O Ponto Alto)
Se você joga Assassin's Creed pelo stealth, há muito o que comemorar. Jogar com a Naoe traz uma das melhores experiências de furtividade da franquia em anos. O design de níveis permite que você use as sombras a seu favor (podendo apagar luzes para criar escuridão), use um gancho para se locomover pelos tetos e rasteje no chão para passar despercebido.
Dica de ouro: O jogo oferece a opção de ativar o "assassinato garantido" e desligar os marcadores de inimigos na interface. Fazer isso transforma a experiência, deixando o gameplay incrivelmente fluido, tenso e recompensador, livre da necessidade de ficar trocando de armadura apenas para conseguir abater um alvo furtivamente.
O Peso Desnecessário do RPG no Combate
Enquanto o stealth brilha, o combate aberto sofre com a insistência nas mecânicas de RPG. Inimigos de níveis mais altos se transformam em verdadeiras "esponjas de dano". Em vez de o combate se tornar genuinamente mais difícil ou tático, ele se torna apenas tedioso, exigindo dezenas de golpes para derrubar um oponente. O sistema de níveis engessa a exploração e tira o peso de se empunhar uma katana letal.
Imersão Quebrada
Um dos maiores problemas de Shadows é a sua constante crise de identidade na direção artística, que gera quebras violentas de imersão. É difícil levar a jornada a sério quando você está no Japão de 1570, enfrentando um chefe, e a trilha sonora decide tocar um trap, rap ou rock moderno. Outro exemplo gritante é Yasuke, em sua jornada de vingança contra os Templários, acabar vestindo a própria armadura com o brasão da ordem que assassinou sua mãe. Falta coerência.
Para contornar parte desses problemas narrativos e anacronismos (como o uso de linguagem neutra na dublagem), a recomendação máxima é jogar no Modo de Áudio
Imersivo. Com ele ativado, os personagens falam em japonês no Japão, e os portugueses falam em português de Portugal. Isso salva a atmosfera do jogo e evita falas que soam cômicas ou deslocadas.
Esconderijo e a Oportunidade Perdida do Co-op
O jogo introduz um sistema fantástico de construção de base. Você pode gerenciar seu esconderijo em detalhes, recrutando aliados (companions) que ajudam nas missões. É uma adição que consome boas horas de forma divertida, mas que escancara uma oportunidade perdida: se temos um grupo de assassinos invadindo castelos, este seria o momento perfeito para a introdução de um modo cooperativo, permitindo que jogadores sumonassem amigos para executar infiltrações conjuntas.
Um Mundo Deslumbrante com um Final Frustrante
Graficamente, a Ubisoft entregou um trabalho impecável. O mapa tem um tamanho excelente — muito menos inchado e enjoativo que os de Odyssey ou Valhalla — e a mecânica de mudança de estações do ano é brilhante. O inverno congela lagos que antes serviam de rota de fuga, enquanto a primavera traz folhagens que ajudam a se esconder, alterando a forma como você aborda cada invasão.
No entanto, a narrativa principal é branda e guarda seu maior pecado para o encerramento. A trama inteira gira em torno da busca por caixas misteriosas ligadas aos artefatos Isu. Porém, ao chegar no final do jogo, a última caixa não é aberta e o mistério não é revelado. O jogo termina de forma abrupta, deixando a verdadeira conclusão evidente e descaradamente presa a uma futura DLC.
Veredito
Assassin's Creed Shadows é um jogo de altos e baixos. Ele sofre com decisões questionáveis de história, problemas de continuidade, um final cortado e quebras de imersão difíceis de engolir. Contudo, a diversão entregue pela furtividade de Naoe e a beleza do mundo dinâmico conseguem segurar a experiência, tornando-o um título superior a Valhalla e Odyssey para quem sentia falta de agir pelas sombras.